O termo perversão tornou-se um conceito para a psicanálise a partir de 1896, quando Sigmund Freud o colocou ao lado da psicose e a neurose. Historicamente a perversão está em um campo bem amplo, pois engloba comportamento, práticas e fantasias correlacionados à norma social.

Outro aspecto importante a ser mencionado é que a perversão tanto no Ocidente quanto no Oriente, sempre esteve baseada em múltiplas formas que variaram conforme as épocas, culturas, costumes etc.

Deste modo, a perversão está associada ao momento histórico e cultural de uma determinada sociedade. No Ocidente, por exemplo, a homossexualidade na Grécia Antiga era vista como algo natural. Com o advento do Cristianismo a prática passou a ser considerada satânica e no século XIX, como algo totalmente anormal para o ser humano.

No século XX, em 1974, a homossexualidade foi reconhecida como mais uma forma de sexualidade não figurando no terceiro Manual Diagnóstico Estatístico dos Distúrbios Mentais (DSM III) editado em 1987, como parafilias.

Para Freud inicialmente, a perversão (homossexualidade) apresentava  uma ambivalência. Como salientam Roudinesco & Plon[1],

(…) a “disposição perverso-polimorfa” ao homem em geral e, com isso, rejeita todas as definições diferencialistas e não igualitárias da classificação psiquiátrica do fim do século, segundo a qual o perverso seria um “tarado” ou um “degenerado”, porém, por outro, ele conserva a ideia de norma e de um desvio em matéria de sexualidade. (…)

Em 1905, no seu livro Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, Freud utiliza o termo “perversões sexuais” e emprega mais frequência o termo “inversões”. Com o passar do tempo Freud iria mudar sua terminologia a partir de novas reflexões.

Para Freud, a neurose seria o “negativo da perversão”. Sendo assim, o pai da Psicanálise apontava para o caráter selvagem, polimorfo e pulsional da sexualidade perversa.

Ao contrário da sexualidade neurótica, a perversa não conhecia o recalque, o incesto e a sublimação. A falta de limites decorria em virtude do desvio em relação a uma pulsão, uma fonte (órgão), objeto e alvo. A partir dessas constatações Freud distinguiu dois tipos de perversões: a de objeto e a de alvo.

A partir de 1915, Freud  reformulou sua observações. Da descrição das perversões sexuais Freud passou para a organização como um modelo baseado clivagem.

Assim,

(…) “Ao lado da psicose, definida como a reconstrução de uma realidade alucinatória, e da neurose, resultante de um conflito interno seguido de recalque, a perversão aparece como uma renegação ou um desmentido da castração, com uma fixação na sexualidade infantil”[2].

Jacques Lacan colocou a perversão com uma estrutura, retirando-a do campo do desvio. A abordagem lacaniana introduziu as noções de desejo e gozo. Deste modo, a perversão seria um componente inerente a psique do homem.

Com tal perspectiva, a perversão saiu do campo sexual e tornou-se “tratável” no campo psicanalítico, deixando de ser um perigo para a sociedade.

Como assinalamos acima, Lacan conseguiu reformulou abordagem freudiana facilitando o acesso do perverso ao tratamento psicanalítico. O fim da “incurabilidade” para perversão foi de fundamental importância na tentativa formular melhores perspectivas para o perverso.


Bibliografia

Roudinesco, E. & Plon, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.

QUEIROZ, Edilene Freire. A Clínica da Perversão. São Paulo, Editora Escuta, 2004.


[1] Dicionário de Psicanálise. E. Roudinesco & Michael Plon. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, p. 584.

[2] Op. Cit., p. 585.

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